Um alarme soa onde se refugia o cara poderoso de identidade não revelada. O rádio policial detecta uma ameaça acontecendo em tempo real, no coração da cidade. Vielas nunca foram seguras. Sombras exalam cheiro de sangue enquanto se projetam entre becos apertados. A vítima urra com um rugido estrangulado. As luzes da cidade estão tremeluzindo e quase apagam. O mundo clamando por justiça.

O parágrafo que você leu acima nada mais é do que a realidade tecida nas páginas e mais páginas de pequenos livros construídos com página de aspecto barato, cheios de traços, cores, onomatopeias e ilustrações. Histórias em Quadrinhos, ou Hqs. Verdadeiras reproduções do sentimento indefeso de incapacidade humana, você sabe. Por sermos meros seres mortais no meio de um mundo que pervertimos, sujamos e o sentenciamos para a destruição.

Aqui na redação online, toda segunda será meu dia de falar. E eu só queria dizer que, nos cinemas, estamos todos ficando lotados de Marvel no estilo mais blockbuster possível. Continuações. Em partes, desnecessárias. Agora, filmes que complementam uns aos outros. Cachês e mais cachês por anos de contrato que quase dariam para aplacar com a miséria do mundo inteiro, se me permitirem exagerar aqui. Atores hollywoodianos que se confundem com seus personagens. Trailers, promoções, produtos, eventos e especulações que parecem nunca acabar. E no meio de toda a mistura, o sentimento de que toda a parafernalha de super-heróis nas telonas deixou a desejar no ponto crucial das histórias em quadrinhos.

BAC-ArkhamCity

Precisamos ver de novo nas telas o clamor do mundo pela justiça, como as HQs são capazes de reproduzir perfeitamente. Estou cansado de apocalipses subsequentes, explosões ininterruptas, doses exageradas de piada, plano-fechado nos rostinhos caros de todo o elenco pago para atuar por mais uns pares de anos.

Faço aqui, mesmo que inútil, um apelo para filmes com mais heróis vestidos como seus heróris são. Heróis que escondem o rosto e preferem a justiça ao invés do orgulho. Heroínas que decidem entregar a vida e não estão se importando tanto assim em se envolver com outros caras. Heróis que apresentam fraquezas por serem homens. Fraquezas explícitas e não subliminares. Heróis que não estão no meio de uma explosão, mais correndo atrás do perigo, na calada na noite, quando uma vítima é pega bem no coração da cidade…

Se estamos no fim do mundo? É, tudo indica que sim. E talvez por isso, nossos jornais são banhados em sangue quase todos os dias. A brutalidade da informação não nos toca como antes, tão calejados estamos com as notícias mais banais. Crueldade está andando pelas ruas, esfaqueando inocentes sem custo algum. Talvez seja realmente o fim. Um fim que mais se parece com atentados reais do que guerras contra alieníngenas e ultra mega poderes.

É um apelo polêmico. Talvez difícil de entender. Talvez muito pessoal.

Só queria pagar para assistir nos cinemas heróis mais parecidos com os que eu lia na minha infância. Porque ainda acho que o mundo precisa deles. Mais do que nunca. Heróis mais humildes, mais humanos… mais heróis.

About The Author

Stefano Sant' Anna

Jornalista, Designer Gráfico e autor do livro “Inverno Negro” que será lançado pela Editora Empíreo em 2015.