Certa vez um homem chamado Alfred Hitchcock disse a seguinte frase “a metragem de um filme deve ser proporcional à capacidade da bexiga do espectador” e partindo desse ponto, vamos abordar alguns pontos que devem ser levados em consideração quando uma obra literária é adaptada cinematograficamente.

Ponto de vista: Muitas vezes os livros trazem a narrativa através do ponto de vista do personagem principal, sendo assim alguns outros personagens que tem suas características não tão definidas nos livros devido ao tempo que se tem para desvendá-las no cinema não se aplica muito bem. Um bom exemplo disso é o livro Coraline de Neil Gaiman, “Coraline Jones está entediada em sua nova casa, até que encontra uma porta secreta e descobre uma versão alternativa de sua própria vida do outro lado. Aparentemente esta realidade paralela é muito similar à sua vida e às pessoas com quem convive — só que é muito melhor.

Quando este mundo aparentemente perfeito fica perigoso e seus pais alternativos tentam aprisioná-la para sempre, Coraline terá que contar com sua habilidade, determinação e bravura para escapar deste mundo cada vez mais ariscado — e salvar sua família.” No filme isso se torna claro desde a primeira vez que Coraline imerge em seu mundo perfeito, já no livro isso não é algo que fica claro logo de cara fazendo com que o leitor quebre a cabeça por um tempo até compreender o que realmente estava acontecendo. Trazer isso para um filme/animação em stop-motion com categoria infantil não era viável, e a forma que foi construída a adaptação acabou sendo muito bem recebida por parte dos telespectadores, mas ai entra a mão do escritor também. Neil Gaiman participou ativamente do processo criativo do filme como roteirista, isso permite que o mesmo não perca a sua essência e mantenha-se fiel mesmo com algumas mudanças.

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Ambientação: Às vezes esperamos uma representação idêntica de alguns objetos ou de alguns lugares, afinal a leitura nos permite através da descrição do lugar nos fazer viajar e imaginar cada mínimo detalhe, e por conta disso muitas vezes ficamos frustrados com algumas representações, mas a indústria cinematográfica pensa na qualidade visual acima de tudo, como isso vai funcionar de forma que atraia também o público não-leitor e que se mantenha fiel e com qualidade. Quem leu The Maze Runner sabe que a sala dos mapas não tem projeções holográficas, e sim mapas cartográficos feitos de papel, mas James Dashner concordou com a ideia da equipe de direção do filme de que essa mudança seria necessária.

Logo de cara é de se causar estranhamento, mas se torna algo mais atraente ao público e fácil de ser apresentado, evitando cortes de tela e trazendo uma abordagem mais repaginada. The Hunger Games é outra bela adaptação cinematográfica, tanto na parte do enredo, quanto nas propostas políticas que o filme aborda, mas a ambientação está muito bem feita. A Capital, a Cornucópia, os Distritos, todos muito bem apresentados em seus mínimos detalhes, a Quadrilogia cinematográfica de Jogos Vorazes é uma das melhores adaptações de livros do momento, mantém seus personagens fieis em seus ideais e características e com o mesmo apego que se tem no livro.

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Enredo: A Laranja Mecânica do livro de Anthony Burgess é considerada como uma das melhores adaptações cinematográficas baseadas em livros de todos os tempos. Com direção de Stanley Kubrick, as críticas sobre o filme foram extremamente positivas, pois o diretor e a equipe de roteiro conseguiram manter as características do livro e toda a sua essência, permitindo que o telespectador se sinta dentro da mente do sociopata Alex, que é interpretado muito bem por Malcolm McDowell. O cenário é muito bem retratado, as músicas se encaixam muito bem e os atores dão uma vida a seus papéis de forma magistral, acarretando em um dos melhores trabalhos de Kubrick e recebendo 4 indicações aos Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor para Stanley Kubrick, Melhor Roteiro Adaptado para Stanley Kubrick, Melhor Montagem, mas acabou não levando nenhum.

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Harry Potter e o Enigma do Príncipe sofre duras críticas da maioria dos fãs (que diferente de mim e de muitos críticos de cinema) não gostaram do filme. Muitos elementos foram deixados de fora do sexto filme da saga, como por exemplo, a família de Tom Riddle (Voldemort) e o relacionamento conturbado entre seus pais que só se relacionaram, pois sua mãe (Mérope Gaunt) utilizou a poção do amor para fazer seu pai (Tom Riddle Sr) se apaixonar por ela, e esse é um dos motivos que tornam Voldemort tão cruel. Deixar esse elemento chave deixou a maioria dos fãs frustrados, e reclamam do tom de comédia que o filme tem por muitas vezes. Mesmo com a crítica dos fãs o filme coma direção de David Yates conseguiu alcançar bons números obtendo o recorde de maior faturamento em um único dia, e também o recorde de maior estreia de todos os tempos, acumulando $394 milhões de dólares em apenas cinco dias (no ano de 2009) além das indicações ao Oscar de Melhor Fotografia e outras duas nomeações no BAFTA de Melhor direção de Arte e Efeitos Especiais. Já Harry Potter e o Prizioneiro de Azkaban que com certeza é a melhor adaptação dos livros de Harry Potter, mas não foi isso que a crítica disse logo de cara.

Alfonso Cuarón assumiu a direção do terceiro filme, e teve que encarar o fato do filme ter sido o de menor bilheteria dentre todos os filmes da saga. Reclamavam do tom do filme que era claramente mais “sombrio” que o primeiro e o segundo filmes e que isso iria prejudicar a relação com o público infantil. A verdade é que com o passar do tempo, tanto os fãs quanto os críticos mudaram de opinião e enxergaram que o Prisioneiro de Azkaban viria a ser uma das melhores adaptações recentes de livros, e recebeu duas indicações ao Oscar: Melhores Efeitos Especiais e Melhor Trilha Sonora. Recebeu quatro indicações ao BAFTA: Melhor Filme Britânico, Melhor Maquiagem, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Desenho de Produção.

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E não podemos falar de adaptação de livros sem mencionar Senhor dos Anéis: O retorno do Rei, a conclusão da trilogia épica que conta a história do Hobbit Frodo Bolseiro e sua jornada até Mordor para destruir o Um Anel e por um fim nos planos terríveis do grande vilão Sauron. Toda a trama se desenrola de uma forma sensacional, e apesar do filme ter uma duração muito longa (sem contar a versão estendida) ele prende o telespectador pois conta com inúmeras cenas épicas de batalha, os cenas emocionantes e intensas onde a amizade prevalece sob o mal. Sem duvida essa é uma das melhores adaptações cinematográficas, seja na opinião do público ou da crítica que aprova de forma quase unanime o filme, que possui bilheteria de $ 1,119,929,521 bilhões, sendo o primeiro filme da trilogia a bater a casa do bilhão e segundo a atingir essa marca, que havia sido batida apenas por Titanic de James Cameron, e hoje ocupa o décimo quarto lugar na lista dos filmes de maior bilheteria do cinema. Senhor dos Anéis: O retorno do Rei se consagrou recebendo 11 indicações ao Oscar, vencendo as 11 categorias, sendo elas;

Melhor filme  Barrie M. Osborne, Fran Walsh e Peter Jackson, Melhor diretor – Peter Jackson, Melhor roteiro adaptado – Peter Jackson, Fran Walsh e Philippa Boyens, Melhores Efeitos Visuais – Jim Rygiel, Randall William Cook, Alex Funke e Joe Letteri, Melhor Direção de Arte – Grant Major, Dan Hennah e Alan Lee, Melhor Edição – Jamie Selkirk, Melhor Figurino – Ngila Dickson e Richard Taylor, Melhor Maquiagem – Richard Taylor e Peter King, Melhor Mixagem de Som – Christopher Boyes, Michael Semanick, Michael Hedges e Hammond Peek, Melhor Trilha Sonora – Howard Shore, Melhor Canção Original – Fran Walsh, Howard Shore e Annie Lennox por Into the West.

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Esses são apenas alguns exemplos dentre vários outros para mostrar que quando a equipe de direção e roteiro está se dedica coma afinco ao trabalho, a qualidade é satisfatória tanto para os fãs dos livros quanto para o público não-leitor. Algumas mudanças acabam sendo necessárias pois nem tudo que se tem nos livros da para ser representado fielmente em uma obra cinematográfica, mas mesmo assim da pra fazer um filme sendo fiel ao livro apesar das mudanças, se apegando a ideologia e a mensagem que o livro passa, transportando isso das páginas para a tela.

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Victor Bugallo

Sacerdote do Deus Afogado nascido nas Ilhas de Ferro, descendente de Odin, aluno da Corvinal e filho de Darth Vader.