Primeiro, você assiste. Depois, você morre.

Doze anos desde o último filme d’O Chamado. Quinze desde a primeira adaptação americana. Dezenove do original terror japonês Ringu. E vinte e seis anos desde o livro homônimo que derivou o filme escrito por Koji Suzuki. Uma franquia que poderia se considerar datada (e com motivo), logo modernizar era inevitável. Mas nem sempre tornar moderno é sinônimo de tornar bom.

Lembro-me O Chamado lá para 2003/2004, e me borrar de medo. Não só enquanto assistia, mas a cada vez que o telefone tocava após terminado o filme. Naomi Watts (King Kong) transparecia o pavor após assistir a fita amaldiçoada que mata em sete dias, e o diretor Gore Verbinski (Piratas do Caribe 1 ao 3) soube passar a linguagem para um terror ocidental.

Passado o burburinho que o filme causou, já se falava em uma sequência. Foi contratado um diretor japonês, e não qualquer diretor japonês, o diretor do Ringu original, Hideo Nakata. Acho que queriam fazer jus ao material de origem, mas o resultado saiu muito aquém do esperado, custando pouco mais que seu antecessor e lucrando apenas metade do mesmo. Daí justifica-se a longa espera até a confiança em um novo filme, e o fazer. E a espera valeu a pena?

Maior é mesmo melhor?

Chamados 3 já começa numa grande escala, com uma cena inicial inteira dentro do avião (a qual foi inclusive divulgada pela própria Paramount Pictures, e você pode ver clicando aqui). E não vou mentir, o começo me empolgou. Esta cena, o suspense no ponto certo quando o Professor Gabriel (Johnny Galecki, The Big Bang Theory) compra o videocassete, e a introdução dos principais. Foi no desenrolar que o filme se perdeu.

Em meio a um culto em volta da fita, e quase que devoto à Samara (ideia nem tão original, explorada pelo diretor Gore Verbinski, da primeira adaptação americana, no curta Círculos, e lá funciona bem melhor). O casal de protagonistas tem um desenvolvimento porco, com Holt (Alex Roe, A 5ª Onda) e Julia (interpretada insossamente por Matilda A. I. Lutz, de Fuoriclasse), que já de cara compra a ideia da fita amaldiçoada, e sem mais nem menos fica obcecada em descobrir tudo a fundo, inclusive tendo visões de aberta interpretação o tempo todo no filme.

Quanto aos personagens coadjuvantes, a impressão que fica é que o diretor F. Javier Gutiérrez (Tres días) queria passar uma sensação de “Ninguém está seguro” e “Nada é o que parece” e acabou por desperdiçar potencial. Por exemplo, gostei bastante do personagem de Galecki e o mesmo foi muito subutilizado, e também Vincent D’Onofrio (o Rei do Crime de Demolidor) interpreta Burke, o cego (Parece que o jogo virou, não é mesmo?), mas o personagem dele pareceu uma versão de baixo orçamento de O Homem nas Trevas. (Sério, tem uma cena deste filme que é cópia esculpida em carrara de lá)

O “Chamando”

Rumo ao fim do longa, a direção resolveu incorporar M. Night Shyamalan e jogou reviravolta atrás de reviravolta. Insistiram tanto em deixar o filme “imprevisível” que se tornou maçante. Assim sendo, ficou evidente o quanto o roteiro quis ser megalomaníaco e mirando em O Sexto Sentido, as revelações soavam mais como Fim dos Tempos. Quiseram investir tanto em algo diferente que Samara, símbolo da franquia, só apareceu em duas ou três cenas o filme inteiro.

O cenário de terror atual carece sim de filmes excepcionais, e a todo momento vemos sair um “terror pipoca”, que joga uma temática sobrenatural em cima de uma trama previsível e recheada de jump scares (Falarei disso em O Chamado 3 mais adiante). Todavia, quando há um filme bom, ele é bom, de fato. E caras, Chamado é uma franquia que merece ser tratada com carinho.

Durante a sessão, não pude deixar de pensar em Invocação do Mal e o trabalho excepcional do diretor James Wan, ou do remake de A Morte do Demônio de Fede Alvarez. E uau, como uma sequência de O Chamado, com um roteiro previamente revisado e dirigido por um destes teria potencial de ser incrível.

Considerações finais:

Antes de terminar esta resenha que vos apresento, devo ressaltar alguns pontos positivos da obra. Com exceção dos protagonistas, e apesar de desperdiçados, reconheço os louros da escalação dos coadjuvantes. D’Onofrio e Galecki, como já citei, estavam bem em cena, e Aimee Teegarden (Star-Crossed) pelo pouco que apareceu, conseguiu vender a personagem e o terror necessários em cena. Os jump scares também estavam até quase no ponto. Metade não funciona devido ao “aviso da trilha sonora”, porém alguns sustos ficaram inevitáveis e na hora certa do clímax (Tomei tanto susto com as cenas envolvendo portas, vocês não imaginam).

Além disso, a cena final é muito boa, de fato. Tão boa que me deu vontade de ver uma continuação, por mais que o filme tenha sido decepcionante. Ela é um contraponto à cena inicial e é uma das vezes que “maior é melhor” se mostra fatídico. Começo e fim bons, é como se O Chamado 3 fosse um sanduíche, com um pão de excelente qualidade e o recheio tão exagerado que é enjoativo, e o desenvolvimento da história, tal qual numa redação do ENEM, não deixa de ser importantíssimo para o todo da narrativa.

Enfim, não foi desta vez que a franquia se restabeleceu, mas uma sequência ainda é possível. Visto que a mais recente parte desta trilogia custou apenas metade do que ambos os orçamentos dos primeiros, o lucro é basicamente garantido, e isso pode dar luz verde a um “O Chamado 4”. Só façam um favor, tratem o filme bem e chamem Wan para dirigir. Ou Alvarez. Por favor, nunca te pedi nada.