“- Esse é o Gus, eu podia foder com outros caras, mas escolhi não foder.
– Oi, eu sou o Gus, sou o único com quem ela fode.”

1 ano após sua elogiada estreia na Netflix, Love volta com tudo, para continuar a história de amor criada por Judd Apatow (criador de praticamente toda comédia com Paul Rudd e/ou Seth Rogen que você conhecerá) e Paul Rust (também protagonista da série). Aos desavisados de plantão, saibam logo, esta é uma história sobre amor, não necessariamente uma história de amor.

Começando exatamente de onde a primeira temporada terminou, vemos o que será do relacionamento de Gus (Rust) e Mickey (Gillian Jacobs, de Community) de agora em diante. Em um posto de gasolina, onde ela assume ser alcóolatra, drogada e viciada em amor e sexo, somente para ser surpreendida por um beijo de Gus. É, amigos, o amor é assim, eu acho.

De começo, a história já surpreende por ir a um caminho inesperado. Mickey fica nervosa pelo rapaz não decidir acatar sua decisão e decide que daí então serão só amigos. Claro que eventualmente o tiro sai pela culatra, mas foi um belo acerto de roteiro essa decisão. Agora, falemos da temporada mais amorzinho até então:

Amor à segunda vista – O significado subjetivo

Devo dizer, gosto de histórias que tratem sentimentos sob uma ótica humana de verdade. Filmes como 500 dias com ela (2009) e Celeste e Jesse para sempre (2012), por exemplo, trabalham bem o viés do “amor”, propriamente dito. Não é um amor romantizado, não é “só flores”. É o amor cru, é o amor de verdade. É um amor que envolve o melhor do relacionamento aliado ao pior, afinal, sempre há os dois lados.

Na primeira temporada, houve a mostra da paixão de ambos. De como se ligaram e desenvolveram afeto. Nesta segunda, vai além. Estabelecem-se as bases da confiança de ambos, cumplicidade, limites. O lado feio também fica claro, com uma nem tão sutil codependência de ambos (principalmente da parte de Gus neste ano), e faz inclusive questionar o real significado de “relacionamento saudável”.

Nos primeiros episódios, faz-se questão de botar em evidência o quão miseráveis e solitários os protagonistas são um sem o outro. Deixa-se de ser uma relação “Eu escolhi estar com você” para “Eu preciso estar com você”, e, sendo assim, para que os dois se tornassem realmente certos um para o outro, fazia-se essencial o amadurecimento de ambos, e palmas para a série por ter feito isso de uma forma excelente, ainda que incompleta, este ano.

Amor à terceira vista – Desenvolvimento amoroso

Já estabelecidos como pessoas “do dia-a-dia”, era hora de vermos cada um lidar com os perrengues que a vida dá. E Gus, com sua forma passivo-agressiva e cabisbaixa de viver, junto à Mickey com todos os seus vícios, lidaram cada um à sua maneira.

Indo mais para o meio da temporada, os realizadores decidiram alavancar estes dois problemáticos a nível profissional, e mais uma decisão acertada. Primeiramente, tendo Gus como professor de set e aspirante a roteirista viajando para fazer dois filmes com Arya (atriz mirim Iris Apatow), e deixando seu relacionamento à mercê da distância. Assim, Mickey pôde investir na sua carreira na rádio e conseguiu seu primeiro trabalho como produtora.

Daí vieram os problemas, e para surpresa geral, Gus é o que se sente mais afetado pela distância e saudoso da dita cuja, enquanto Mickey, antes viciada em amor, investe em sua carreira e passa a ignorá-lo. E vem a evolução de personagens na jogada, ela enfim aprende a andar com as próprias pernas, enquanto Gus, após refletir e ver uma reunião do Al-Anon, que são familiares e amigos de pessoas alcóolatras, aprende a ser parte de um casal, de forma individual.

Amor à quarta vista – Personagens de apoio moral

“Me sinto bem mãezona te dando conselhos da cama. ‘Pare de fazer sexo!’ ”

Aqui entra o maior problema da série: Seus demais personagens. É como se não soubessem equilibrar personagens principais e secundários. Enquanto desenvolvem completamente o casal da história, os demais ganham pouquíssimo espaço e participação bem aquém do esperado.

O maior destaque dos secundários fica a cargo de Bertie (Claudia O’Doherty, de Descompensada), que estava fantástica, ganhando trama para seu namoro com um desempregado e despreocupado Randy, e não saber como terminar; e Truman (Bobby Lee, de Segurando as pontas) que ganha um episódio para chamar de seu, envolvendo Mickey em suas loucuras com sua namorada lutadora.

Sobre outros personagens como Chris (Chris Witaske, de New Girl), que estava hilário este ano, e a trupe de vizinhos de Gus; Dr. Greg (Brett Gelman, Os Outros Caras); Syd, o marido e os demais amigos de Mickey; Kevin, Susan e o resto da equipe da série Witchita; e todo o resto se resumem a aparições esporádicas e piadas pontuais, e que servem de muleta para o casal, dependendo da conveniência do roteiro. Mal aproveitados, simplesmente.

Considerações finais do admirador nem tão secreto:

Love se despede muito bem de 2017 (com sua terceira temporada já garantida pela Netflix), e entrega uma temporada excelente, mesmo a trancos e barrancos de vez em quanto, tal qual o casal titular. Entrega uma imprevisibilidade realista, desde o relacionamento à distância ao encontro com o pai de Mickey, Marty (ator convidado Daniel Stern), uma comicidade refrescante e uma leveza necessária.

Com um desenrolar extremamente mais engraçado que o ano anterior, que tratava do amor dos dois de um jeito mais denso e dramático, e além de uma boa história, pedacinhos de lições de vida ao longo dos episódios. Sem contar as participações especiais, como de David Spade (Gente Grande) que estava incrível como o pai de Arya, e de Andy Dick, como ele mesmo. E também momentos memoráveis, desde Gus chapadão de cogumelo enquanto Randy invadia uma casa, a Mickey fugindo do isolamento policial e Gus sendo pego e a fuga do ex-namorado louco Dustin (Rich Sommer, o irmão do Marshall em How I met your mother) na feira da cidade.

Enfim, fechando com chave de ouro, temos um final muito menos agridoce do que anteriormente (Meu Deus, como eu odeio o fim da primeira temporada). Eles dois finalmente assumem um namoro, deixando a porta aberta para muito amor e muitos desafios para os pombinhos. Espero que os dois continuem sem querer sair da cama, vendo séries juntinhos, e que lidem com o que a vida jogar no colo deles, juntos, nessa série que, como o nome diz, é só amor.