“- Alguém vai aparecer.
– Alguém já apareceu.”

Wolverine. James Howlett. Logan. Após 17 anos, 6 filmes dos X-Men, 2 filmes solo, era chegada a hora do filme definitivo do carcaju. Incrementando elementos de Velho Logan e com o diretor James Mangold, do mediano Wolverine: Imortal, o filme era a despedida do astro Hugh Jackman no papel. Mas será que a obra poderia cumprir as mais altas expectativas e entregar um trabalho à altura do adeus do protagonista dos X-Men dos cinemas? A resposta é sim, fucking sim.

A cena inicial já dita o tom do filme dali para frente. É violência escancarada, que justifica a censura alta, porém, mais importante, casa com a história que está sendo contada. E meus amigos, que história. Após o fim dos X-Men e do Instituto Xavier para Jovens Dotados, Logan está vivendo como motorista de limusine, enquanto cuida de um debilitado Charles Xavier, junto com Caliban. Isso até uma certa pessoinha aparecer para virar a vida do mutante do avesso.

É interessante notar como Logan exercita uma “jornada do herói tardia”. Com um protagonista já aposentado de praxe recusando seu chamado à aventura, enquanto seu mentor já estabelecido o guia para sua nova leva de testes. Vi isso como um fim de ciclo, em que o fim do herói reflete seu começo, e achei belíssimo. Agora, que tal darmos uma de Arma X e destrincharmos o filme, xará:

Arquivo 1 – Elemento humano de cada mutante:

Primeiramente, vou elogiar a performance sensacional de Patrick Stewart no papel do Professor X, tinha os elementos de professor, de sua debilidade, ainda mantendo certo afeto e sensibilidade para com o próximo, uma interpretação sublime do personagem dos quadrinhos. E falando em sublime, não faltam elogios para Hugh Jackman, que apresentou tudo que Wolverine deveria ter: selvageria, indisciplina, sarcasmo e uma pitada de proteção com quem ele ama, escondida numa persona extremamente ranzinza.

Ainda nesses dois, é notável como o longa respeita a personalidade e desenvolvimento de personagem de ambos. Apesar do semblante diferente, a personalidade mais leve de Charles se assemelha muito à do jovem Xavier interpretado por James McAvoy, enquanto Hugh Jackman faz um Wolverine cansado, condizente com a jornada que o herói passou. O respeito ao passado é tão intrínseco que Mangold faz questão de mencionar o primeiro filme em um diálogo de Jackman e Stewart, quase que de forma saudosista.

E com uma dupla principal tão boa e de longa data, era impossível a química não sobressair na tela. Você sente que estes personagens não estão juntos por acaso, não são só uma antiga equipe, nem somente professor e aluno, são uma família. Todas as cenas que remetem ao que houve com os X-Men deixam bem claro o quanto Charles e Logan são dedicados um ao outro, cada um à sua maneira. E por falar em família…

Arquivo 2 – Da Arma X ao Projeto X-23:

Eu sei, eu sei, era inevitável falar de Professor X e Wolverine, as almas deste universo cinematográfico. Mas devo dizer, quem rouba a cena é a novata. A jovem Dafne Keen, atriz de apenas 11 anos e em seu primeiro papel no cinema, mostra que idade não é referencial quanto a ser badass. E é badass no sentido mais foda da palavra. Laura mostra a raiva e selvageria naturais ao carcaju, junto a uma sensibilidade e ingenuidade perceptíveis já no olhar da garota.

Só não se deixe enganar com a aparente inocência, a garota é brutal. Chuta bundas da forma mais afiada que lhe convém, arranca cabeças e membros, ela é páreo duro. Momentos que ela fazia time com Logan sozinhos já valiam o ingresso, as lutas dela eram sempre sensacionais, brutais e alucinantes, daquelas que te mantêm vidrado mesmo no que está rolando.

Ademais, Dafne Keen tem carisma de sobra. Para uma personagem nova, que se comunica em grunhidos e berros por boa parte do filme e que feita para ser uma pequena máquina de matar, te fazer sentir tanta coisa, é por ter mais além da superfície, muito mais. Curiosidade define o que sinto sobre o futuro da personagem nos cinemas, valendo ressaltar que este longa se passa em 2029. Só espero que mantenham a atriz.

Arquivo 3 – Os vilões e o elo mais fraco:

Para lutar de igual com o time dos bonzinhos, temos os Carniceiros, um grupo de humanos aprimorados com tecnologia que odeia “mutunas” (termo chulo para mutantes). O papel de líder caiu como uma luva a Boyd Holbrook, que faz um Donald Pierce que chega com o pé na porta, imponente, ameaçador e com tiradas que calam a boca do próprio Wolverine.

Um problema fica a cargo do vilão mor, o Dr. Zander Rice, interpretado por Richard E. Grant. Foi um vilão que surge no decorrer do filme como cientista do mal e foi difícil de engolir. Me pareceu mais uma versão genérica de William Stryker (o responsável por criar o Projeto Arma X no passado). Felizmente, ele não atrapalha o caminhar da história e tem até seus momentos interessantes.

Outrossim, o maior defeito para mim foi o “Samurai de Prata” de Logan. Mangold já havia errado em fazer um inimigo de blockbuster em seu filme anterior, entretanto, devo dizer que ele meio que aprendeu com o erro. Em Wolverine: Imortal (2013) havia um antagonista para o qual a história se encaminhava e acabou sendo decepcionante. Neste de agora, é um mal necessário para o filme, para desenvolvimento da obra e seu ato final, e tal qual Dr. Rice, nada prejudica na história. Não darei mais detalhes para evitar spoilers.

Arquivo 4 – Considerações finais:

Enfim, o filme acerta em praticamente tudo que se propõe. Uma mistura de drama e ação, com uma proposta bem simples: Um filme familiar de roadtrip. A simplicidade e o fato de não se prender vigorosamente aos quadrinhos torna a obra incrível e, arrisco dizer, o melhor filme da FOX envolvendo X-Men.

Melhor por entregar o que propõe, por não querer ser mais do que é (cof cof Apocalipse). Melhor por conseguir equilibrar drama, ação e até comédia, com alívios cômicos na medida perfeita, sem soar exagerado como em Doutor Estranho, por exemplo, nem querer ser pretensiosamente sério como Batman vs Superman. É tudo feito com cuidado, esmero e equilíbrio. É um excelente filme para uma excelente despedida de um excelente personagem.

“Catarse” sendo a palavra-chave em seu cerne, seja para Charles, para Wolverine ou para Laura, Logan conclui com louvor a saga do herói homônimo, certamente fazendo até alguns dos fãs mais fervorosos derramarem lágrimas. Hugh Jackman enfim aposenta as garras do papel que tanto o consagrou, e prova de uma vez por todas, e no melhor sentido possível, que ele é o melhor no que faz e o que ele faz não é nada agradável.

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Eduardo Bastos

Não conheci o mundo nerd por querer!