AOS SENTINELAS DE PLANTÃO, O ARQUIVO MUTANTE A SEGUIR ESTÁ RECHEADO DE SPOILERS DO PRIMEIRO EPISÓDIO DE LEGIÃO, SIGA POR SUA CONTA E RISCO.

Psicodelia. Do grego: psyché, sendo sua tradução bruta “mente”; e delos, que significa “visível”, “manifestação”. Sem dúvidas, a melhor palavra para definir este episódio inicial e ditar o que vem aí pela frente.

Acho que nem os tantos teasers poderiam ter me preparado para tamanha viagem que foi este primeiro episódio, e digo isso no melhor sentido da palavra. O primeiro capítulo da história televisiva do mutante David Haller, criado lá nos Novos Mutantes há mais de 30 anos, acerta em cheio como introdução a este mundo que já conhecemos, e ainda temos tanto a conhecer.

De início, o episódio abre ao som de Happy Jack (The Who, 1966) sobre uma montagem de cenas que dita o crescimento conturbado de David, devido à sua mente “diferenciada”. Já havia me animado. E daí, veio a sacada mor: Colocar os acontecimentos a seguir sob o ponto de vista do protagonista e, além disso, nem tudo em ordem cronológica. Isso rendeu reviravoltas e ganchos para serem trabalhados ao longo da temporada tão bons que “impressionantes” parece pouco para descrever.

Antes de entrar em mais detalhes do episódio, devo elogiar a atmosfera que Noah Hawley (Fargo) impôs na série. Além de produtor executivo da mesma, ele dirigiu o primeiro episódio, e sua intenção está impressa, ou melhor, expressa. Seja em expressões de figurino, faciais dos atores, de cenário, entre muitas outras.

Surto #1: Proposta da série

Por se tratar de uma série advinda dos X-Men, era inevitável tratar de temas como segregação, isolamento, preconceito, entre muitos outros pertinentes até a contemporaneidade. Legião traz este, tal qual nos quadrinhos de origem, por um viés mental. Doenças mentais e distúrbios psicológicos, como se vê o mundo e se é visto por ele. Ter um protagonista que não tem discernimento de fantasia e realidade, enquanto segue como “herói da história” é um show à parte.

Lógico, a série também tratará o tema cheque de qualquer história dos mutantes: Como a sociedade lida com o que é diferente. Este começo só dá indícios do que vem, introduzindo vilões engravatados do governo, e heróis rebeldes à norma padrão. Senti até que foi muito preto no branco, vilão mau, herói bom. Espero que haja desenvolvimento nisso, mas como foi só um episódio e mais focado na psique de David, ainda há tempo.

Friso ainda no quanto essas questões são bem trabalhadas, ainda que algumas mais sutilmente. A parte psicológica, obviamente, toma foco. Porém, levemos em consideração que o personagem principal é um esquizofrênico “diagnosticado” (aspas porque é mutante). E questões como exílio e controle governamental são mais pano de fundo, a ser trabalhado no futuro, espero. Todavia, não só de temas sérios vive um produto audiovisual.

Surto #2: Persona(gens)

Meus amigos, que escalações e que trabalho de elenco principal. A começar pelo centro dos holofotes, Dan Stevens (Beauty and the Beast), que faz um David perturbado, alucinado, e ainda com nuances de ingenuidade, como quem não tem noção do próprio poder, me lembrou até uma vibe meio Donnie Darko.

Ademais, Aubrey Plaza (Parks & Recreation) como Lenny Busker merece os louros, por ter feito uma personagem instigante mesmo depois de morta, todas as suas cenas são divertidas. E fazendo o pivô da trama até então, Rachel Keller (Fargo) como a belíssima e mirabolante Syd Barrett. Falando de Syd, eu espero mesmo que ela seja a Vampira, com todo esse lance de meio que pegar os poderes de quem toca, sei lá, sonho de fã.

Além disso, o produtor Hawley já nos adiantou que o show vai brincar com nossa percepção. Dos personagens mutantes apresentados no final, alguns serão algumas das múltiplas personalidades de David. Eu mesmo já penso que o telecinético é o próprio David, que já demonstrou tal poder. E no meio dessas personalidades/personagens, tem o Demônio de Olhos Amarelos (Supernatural vibes), que deve ser o precipício para o lado mau do personagem, e deve gerar eventos cataclísmicos ao longo da série.

Os vilões não tiveram tempo o bastante de ser apresentados, não há tanto a se elogiar. Como parecem caçar mutantes pelo governo americano, tenho esperanças de ver Sentinelas na série, talvez até prisões próprias para mutantes, testes militares, etc. As possibilidades são tantas.

Surto #3: Visões e visuais

Era importante evidenciar o visível na série em uma área separada, porque que coisa de louco. O que víamos muitas vezes completava o que não víamos. Como por exemplo, os surtos agiam em complemento com as vozes que Haller ouvia. Em diversas cenas, percebe-se apelo visual. Colocando o personagem que fala em primeiro plano, centralizado. Ou quando a tela se fecha em nome da dramaticidade. A fotografia da cena variando do quente em sonho/ilusão e cenas no plano tangível em cores frias.

Dou destaque a algumas cenas em especial. A cena da dança foi um espetáculo, e por mais surreal, caiu como uma luva. A dualidade David/Syd quando este sai do manicômio estava cômica de tão bem executada. Até a ambientação, parecia que estava na cor adequada para o momento em questão.

Aliás, uma cena belíssima foi a fuga dos mutantes da instalação ao fim, com efeitos especiais de primeira. Ignorando alguns poucos deslizes, era qualidade que beirava a cinematográfica. Outras tomadas como Olhos Amarelos e o homem na árvore também foram postas de forma a evidenciar a tensão do Legião para o telespectador, e ótimo trabalho nisso.

Considerações finais do psiquiatra:

Apesar da crítica especializada ter abraçado Legião com todas as forças, a série teve a pior audiência de estreia do FX nos últimos anos. Quando eu soube, me veio à cabeça a cancelada Hannibal, ambas séries com conceitos inéditos (visuais e narrativos) e história a se desenvolver. Entretanto, tendo-se em vista que foi só o piloto, há tempo de melhora e capturar mais público.

Se me perguntar, o maior defeito da série neste episódio inicial foi a complexidade. É admirável, mas é delicado trabalhar com isso continuamente. Este capítulo 1 mesmo funciona como um grande quebra-cabeça e você só entende realmente que cargas d’água você está assistindo lá pelos 15 minutos finais. Foi fantástico como episódio piloto, mas que não siga assim, porque é uma fórmula degradável para os telespectadores.

Tudo que foi apresentado pode (e deve) servir para ditar os personagens, o tom e o desenrolar da história. Mas não precisa todo episódio ser um grande enigma de Einstein. Que continua fantástico em tantos aspectos como este nos mostrou, e que também abrace as outras facetas que um universo tão rico quanto o dos X-Caras pode proporcionar.

Enfim, praticamente só tenho elogios a esta abertura de temporada, e tomara que o desenrolar da carruagem só fique melhor e melhor. Já que não faço ideia de como descrever melhor a quem tiver interesse em assistir, faço minhas as palavras da sábia Carol Peletier: