Crítica | Fragmentado

“A mente humana é o objeto mais complexo do universo”

Kevin (James McAvoy, X-Men: Apocalipse) podia ser um indivíduo comum, cheio de traumas, exceto que ele tem 23 personalidades. Certo dia, uma de suas personalidades sequestra três jovens de um estacionamento. Enquanto cativas, elas conhecem cada faceta de seu raptor, enquanto precisam achar um meio de escapar ou ser vítimas do “monstro”.

A volta do diretor M. Night Shaymalan, que não faz um filme marcante desde A Vila (2006), não faz um filme bom desde Corpo Fechado (2000), e realizador do excelente O Sexto Sentido (1999), não podia ser mais intrigante. Com uma sinopse chamativa e uma proposta desafiadora de explorar o transtorno de múltipla personalidades de uma forma terrorífica. O resultado? Com algumas ressalvas, bastante positivo.

Trazer à tona o transtorno dissociativo de identidade (ou de múltipla personalidade), unido a um misticismo forte, este principalmente pautado no número 23, é sem sombra de dúvida único. Nos estudos hebraicos de Guemátria, Kaballa, este número tem um significado de julgamente ou severidade, sendo fortemente ligado ao Apocalipse e associado deveras com acidentes e fenômenos cataclísmicos.

Surto #1 – A individualidade do todo

É fantástico como James McAvoy diferencia as personas de seu(s) personagem(s). Desde um covarde Kevin, a pessoa original, até um artista e condescendente Barry, um psicopata cheio de TOC Dennis, a vilanesca passivo-agressiva Patricia até o jovem ingênuo Hedwig de apenas 9 anos, todos para lidar com o mesmo trauma. São pessoas completamente diferentes. Curiosidade interessante: McAvoy gravou uma personalidade de cada vez. Terminada as cenas do personagem A, ele gravava do B e daí por diante, assim não havia confusão na interpretação de um por outrem.

Trauma esse de sua infância é gradativamente exposto em tela. E dele, vem uma noção que assola Kevin, mas predomina em Dennis, de que aqueles privilegiados e que desaproveitam e são ingratos pela própria vida não são merecedores dela de fato. É a mesma noção trabalhada por Jigsaw na franquia Jogos Mortais. E para punir as não-merecedoras, surge a 24ª personalidade, “o monstro”.

Se por um lado, o lado “Tatiana Maslany” do roteiro é fantástico, pelo outro, se torna exagerado às vezes. Apesar do significado sombrio do número, 23 é uma quantidade excessiva de personalidades quiçá exagerada. Para que tantas se apenas umas 10 aparecem de fato? Era mais realista e útil ao decorrer do filme botar umas 13 ou 15 personalidades (Afinal, nem todas precisam aparecer, mas a obra deve manter-se crível, ainda que em sua mitologia), mas isso não chega a estragar a experiência.

Surto #2 – Personagens ao redor de Kevin e cia.

Mas não só de um (ou mais) protagonista vive um filme. E o restante do elenco tem participação crucial e bem aproveitada. A começar pela protagonista, Casey (Anya Taylor-Joy, A Bruxa), que já inicialmente deixa claro que é diferente da maioria. Ela age com cautela, e estuda cada faceta de seu sequestrador, ao invés de agir impulsivamente. Ainda, ganha flashbacks que deixam explícito seu passado e que ajudam bastante não só no decorrer como na conclusão.

Ainda, tem a Dra. Fletcher (Betty Buckley, Fim dos Tempos), a psiquiatra especialista em transtorno dissociativo, e que conhece de maneira ímpar Kevin e demais pessoas. Ela consegue diferenciar cada um por seus trejeitos, forma de falar, comportamento, mesmo que um finja ser o outro, e isso instiga o espectador, porque eventualmente a coloca de frente com “o monstro”.

As demais garotas em cativeiro, Claire (Haley Lu Richardson, Quase 18) e Marcia (Jessica Sula, Skins) servem mais para exibir até onde vai cada um, a rigidez de Dennis, a simplicidade de Hedwig e a raiva de Patricia. Não reclamo, elas serviram direitinho para o que era proposto, e não necessitavam de background nenhum. Ponto para Shaymalan.

Surto #3 – Plot twists

Falando de Shaymalan, a gente tem que falar da assinatura deste diretor. Estilo de filmar, fotografia, e é claro, plot twists. O diretor sempre teve um fascínio em colocar reviravoltas ao longo de todo filme que fez, para sair da obviedade, do esperado, e recompensar aquele que viu sua obra. Ora funcionam excepcionalmente (vide Sexto Sentido), ora são um horror e desmerecem a história que contaram (olá, Sinais), e isso torna seu trabalho uma eterna incógnita. Mas e quanto a Fragmentado?

As reviravoltas no geral funcionam sim. Tornam o filme mais denso, faz até mais fácil transitar entre diversos gêneros. Fragmentado propõe um terror psicológico, mas transita entre o suspense, a comédia, a ação em alguns momentos, e isso mantém o filme interessante. Era preciso um alívio do terror constante, tratando-se de um filme claustrofóbico, para que pudéssemos respirar entre sustos e aflições.

Talvez eu tenha achado forçada só a trama do monstro e o caminho que tomaram lá perto do final. Mesmo com a inteligente conveniência de termos uma Dra. Fletcher explicando o que está acontecendo para nós, soou artificial e sobrenatural demais. Eu preferia que deixassem o monstro como um conceito, uma ideia, e não trouxessem para cena algo monstruoso de fato.

Considerações finais do psiquiatra

Um ótimo filme, instigante, interessante. E que consegue se manter instigante e interessante até o fim. O elenco, a trilha sonora tensa e até o estilo de filmagem (colocando o ator em evidência e borrando os demais objetos de cena) contribuíram para formar 2 belas horas de entretenimento.

Não é o melhor terror do mundo, nem de longe. Mas não era intenção ser o melhor, e sim, ser diferente. Sendo diferente e bom, está valendo muito o ingresso. Se você curte filmes que te façam grudar na cadeira e se perguntar o que vem a seguir, Fragmentado é uma baita recomendação sim do redator que vos fala.

E se está se perguntando sobre a última cena do filme, e o plot twist final (o melhor do filme inteiro), aguarde que haverá uma matéria própria para isso aqui. Se não estiver a fim de esperar ou ler a matéria em questão, assista a um filme chamado Corpo Fechado (2000), do mesmo diretor, e sane suas dúvidas. E você aí, pronto para ver um James McAvoy mais surtado do que nunca?

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