“O melhor amigo de um garoto é a sua mãe.”

Em 1960, Alfred Hitchcock revolucionava o cinema de suspense com Psicose. Um filme em preto e branco numa época que o colorido já tomava forma. Que driblou a censura norte-americano usando de cortes rápidos em uma cena de literalmente cortes rápidos. Além, é claro, de polemizar várias e várias salas de cinema por mostrar explicitamente uma descarga pela primeira vez na história.

Baseado no livro homônimo de Robert Bloch, o filme foi tão aclamado e bem recebido pela crítica que rendeu 3 continuações com Anthony Perkins reprisando seu papel de Norman Bates, o proprietário do motel e sua mãe assassina. Também rendeu um remake em 1998, estrelado por Vince Vaughn, que replicava quadro a quadro da história original e foi um fiasco.

No fim de 2012, o canal americano A&E anunciou que faria uma série prequela (eventos passados ao surto de Norman) intitulado Bates Motel e protagonizado por Freddie Highmore (A Fantástica Fábrica de Chocolate) e Vera Farmiga (Invocação do Mal). Passados 5 anos, finalmente chegamos aos eventos mostrados no filme. Mas a espera valeu a pena?

O texto a seguir contém spoilers. Só prossiga caso queira realmente olhar pelo buraco na parede para o quarto nº 6.

Check-in – Amor de mãe

Tenho de começar falando do mote inicial da série, a história de um garoto e sua mãe. Toda a bagagem de Norman, seja ela ruim ou boa, é maternal. E nesse âmbito, além de dar os louros a Justis Greene e Christopher Nelson, criadores da série; também são necessárias palmas a Freddie Highmore, ator protagonista, que saiu da sombra de Perkins e fez um Norman seu, e ainda dirigindo alguns episódios da derradeira temporada; e Vera Farmiga, não tão presente neste último ano por motivos de: está morta há dois anos, mas dando aula de atuação em cada cena que faz, não como Norma propriamente dita, mas como idealização de Norma pela mente doentia de seu filho.

A trama principal de Bates Motel sempre orbitou a vida pessoal dos Bates, desde que adquiriram o motel. Os surtos gradativos de Norman e a atmosfera que sua mãe proporcionava perante isso. As cenas dos dois sempre foram a parte mais atraente do show, e até o fim, mantiveram uma coesão e deram uma sensação de fim digno neste âmbito.

O penúltimo episódio da temporada anterior, em que Sra. Bates é morta por seu filho, ao som de Mr. Sandman (que aí para mim se consolidou como música tema da série) cimentou o quanto as obras originais (filme e livro) foram respeitadas e dignificadas em toda a jornada. Acompanhamos um menino franzino desenvolvendo cada vez mais sua psicose, seu transtorno dissociativo e seus bloqueios, a chegar ao limiar do que se considera como sanidade.

Sign on – Tramas paralelas

O calcanhar de Aquiles de Bates Motel sempre foi as tramas paralelas. Convenhamos, eles nunca conseguiram emplacar uma sequer. Toda a trama dos maconheiros e da rede de tráfico de White Pine Bay foi um eterno desperdício de tempo e interesse.

Nessa 5ª temporada, infelizmente, não foi diferente. O planejamento está claro, o final era premeditado pelos roteiristas, mas os detalhes parecem serem feitos “nas coxas”. Mas muito do que vimos funciona melhor em teoria do que na prática. Tramas interessantes foram jogadas ao vento pelo simples fato da reviravolta e tramas entediantes foram a muleta para o series finale.

Toda a trama de Sam Loomis (Austin Nichols, The Walking Dead) e Marion Crane (Rihanna, essa Rihanna mesmo), que eram centro da história no filme foi jogada no lixo, porque os roteiristas preferiram que Norman se entregasse, enquanto as tramas de Alex Romero (Nestor Carbonell, Lost) e do casal Dylan e Emma (Max Thieriot e Olivia Cooke) serviram de fio condutor para as decisões e ações de Norman no decorrer. Lamentável.

Payment – Fidelidade a Psicose

Tudo se desenhara para Psicose. Temos o motel. Temos o maluco. Temos a mãe morta. E Marion Crane chegando para seu fatídico destino. Tivemos algumas frases tiradas diretamente do filme lá nas primeiras temporadas, como “Todos ficamos um pouquinho loucos às vezes”. Mas nada explicitamente tirado de lá. E continuamos praticamente sem ter, graças aos bons deuses.

Confesso que me incomodou o casting de Crane, mas não entrarei em detalhes. Apesar da introdução de Sam Loomis ser diferente, e vermos pela primeira vez a sua esposa, desde a primeira cena de Crane no 6º episódio, tudo se faz igual ao filme. Cena a cena é replicada, com exceção de algumas frases já usadas antes na série, e chega no momento que ela vai tomar um banho, é a fatal cena do chuveiro. E aí… nada acontece. Para apenas no final, termos quadro a quadro o assassinato do chuveiro, só que com Sam Loomis, e com Norman lúcido pela primeira vez. (A parte negativa é que não teve a música clássica, mas não desmerecemos por isso)

Ressalto que copiar igualzinho não deu muito certo da última vez, com o remake. Então é válido irem por outro caminho. E isso gerou um senso de novidade tão grande. Eles respeitaram a obra original ao mesmo tempo que criaram algo seu. Em um dos melhores episódios da série. O problema foi essa trama ficar meio solta se comparada ao fim da temporada, já que ganchos como o celular de Marion caindo são ignorados quando Norman liga para a polícia episódios depois, mostrando um claro mau planejamento. Ou pelo menos não tão bom quanto fora e quanto devia ser.

Check-out – Considerações finais

Foi um final morto para uma série excelente. Sou daqueles que acredita que o que vale numa série não é necessariamente o final, mas a jornada. E que baita jornada foi Bates Motel. Posso dizer que valeu a pena, e sigo recomendando a qualquer um, quer goste do filme ou não. Tem uma história diferente do que costumamos ver na TV (ainda nos dias de hoje) e num bom sentido. Aquele tipo de série que, mesmo quando monótona, te prende à tela.

Devo elogiar antes de tudo, a performance magistral de Highmore, inclusive nas cenas que incorporava a Mother, com destaque às cenas do bar. Falando agora da conclusão, acho que Romero merecia bem mais, e a sua fuga foi uma das piores coisas da série, totalmente sem pé nem cabeça. E sobre Dylan e Emma, achei jogada a história da filha, mas plausível. Emma, no entanto, tem uma das melhores cenas possíveis, quando se despede de Norma(n), uma família de verdade dela, ainda que postiça, e mostrando que pode discernir ambos.

Quanto ao final final, não vou mentir, prefiro o do filme. O zoom em Norman Bates, com seu cobertor, enquanto fazia uma cara maliciosa, mostrando que sabia de tudo, não tem preço. Mas entendo a poesia do fim, apesar de não gostar. Dylan sempre foi o lúcido da família, nada mais digno do que ser ele a acabar com essa loucura. E Norman nunca teve culpa de seus atos, um fim feliz ao lado de sua mãe “no outro lado” (interprete como quiser) compensa termos acompanhado sua trajetória. Enfim, um de meus filmes favoritos e uma das melhores adaptações filme-série que já presenciei, pena que não teve tanto esmero como devia.

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Eduardo Bastos

Não conheci o mundo nerd por querer!