SE, EM SI HOUVESSE TREVAS, prosperaria em suas entranhas, conforme uma raiz que prolifera em subsolo fértil. Cízia sabia disso. Deitou-se no leito das trevas, e deixou-se afundar no mais profundo sono.
O mundo já não era mais o mesmo. As noites arrastavam-se descompromissadas pelos seus céus enegrecidos.
Era da noite que gostava. Era da noite que entendia. Era a noite que observava. Cízia aprendeu, numa das desventuras da insônia, onde se prostrava no parapeito de sua janela para observar a noite, que sempre havia uma luz. Seja lua, seja as estrelas, ou uma fogueira longínqua. A única coisa intacta que sobrava das Ruínas, onde residia como lar, era uma janela torta, na única parede em pé sobrevivida das guerras.
Aquele ambiente era uma memória morta de um caos que por ali divagou. Uma desordem pacifica pelo tempo, que a tornou gélida. Gélida como a predominância temporal que recusou abandonar aquele local, como ela recusava naquele tempo.
Mas era a escuridão completa que ela queria. A ausência total de luz, como eram os seus olhos. Acolhedores e petrificados. Se algum ladrão adentrasse, a escuridão a protegia, a esconderia das garras de qualquer predador. Ela sabia disso, pois ouvira seus sussurros.

As Ruínas eram como labirintos e ela conhecia todos os caminhos. Os animais que se perdiam ali eram suas refeições, até mesmo os homens, quando os tempos estavam difíceis. Os tolos ousavam desafiar a sorte pelos meandros dos desvios sinuosos das construções caídas, desfaleciam de fome, e quando ocasionalmente isso acontecia,Cízia os dividia com os abutres. Ela sempre os recompensava. Era como um jogo para ela; eles encontravam a comida, e traziam até ela, e ela os alimentava. Talvez, diria que os abutres eram sua única família.

Ocorreu um dia, numa noite de lua cheia, um dia raro, pois ela dormia, que um homem veio seguido de meia dúzia. Caçadores. Não, tolos, que se aventuraram nas Ruínas, e por casualidade encontraram sua janela, e depois seu esconderijo. Mas, claro, que muito antes ela os ouviu respirar, balbuciar, tropeçar e ainda mais, ela os viu pela brecha duma enorme pedra acinzentada e disforme, inclinada sobre outra muito maior.

Então, ela ouviu devagar, em sua mente, um sussurro da escuridão e compreendeu. Uma grande nuvem enegrecida cobriu a lua, e toda sua luz. Cízia notou o sinal, e correu. Disparou como um vulto, silenciosa e veloz. Mas o caçador tinha ouvidos de caçador, e a ouviu. A perseguição havia começado, e a pequena e esguia garotinha não tinha o fôlego de um gigante, mas seus passos ganharam uma distancia ligeira deles. Por mais escuro que fosse, enxergava a noite tão clara quanto à luz do sol. Ninguém jamais a pegou, ou a viu.

A luz lunar desceu mais depressa que a garota, e a tocou. Sobreveio que, fora vista. A nuvem havia passado, e a luz lhe revelado. Eles a viram, e a perseguiram. À noite e o amanhecer, e todo o decorrer de dias intermináveis. Ela não comeu por uma semana, e eles foram embora. Desistiram quando seus suprimentos acabaram, mas Cízia sabia que voltariam. Então decidiu partir. Abandonar seu lar, que se tornou sua fortaleza sombria, onde se fundia sua alma, era uma ideia desesperadora, mas não mais que sensata.

Se houve algo que ela pensou com o coração, foi nunca mais confiar na luz. Ela sentiu-se traída, esfaqueada.

Não sabia para onde ia. Em verdade, desconhecia o mundo, qualquer pedaço dele que não fosse o seu. Era estrangeira pela primeira vez. E no meio da estrada, não havia comida, nem água. Era tudo deserto e sereno, como imaginava a morte. E no meio do nada, ela desfaleceu, e antes de tudo escurecer, ela viu nas vastidões azuis e ocas os abutres sobrevoarem nela.

O que Cízia não esperava, era despertar. Justamente o que se sucedeu àquela situação. Não se podia afirmar que estava viva, pois a vida não lhe parecia mais que ecos de memórias falhas e remotas. Mas o que fez se envergonhar naquele instante foi o olhar intimidador do rapaz de sorriso dócil.

Tão dócil, como seu olhar era traiçoeiro. A profundidade daqueles olhos exercia uma força que a puxava. E ela quase caiu naqueles abismos grandes e eternos. Como um cortejo da morte que convida para dançar. Como estrelas cintilantes azuis, sugadas para dentro de um buraco negro.
O jovem esbranquiçado ergueu o canto dos lábios ao mesmo tempo em que se aproximou dela. Cízia recuou com a ferocidade de um animal que recua pelo susto de um possível ataque. Ninguém nunca esteve tão perto dela, como aquele rapaz que a observava ali, que ousava e que não recuou.
A atenção do garoto passeou por toda sua pele. Ela podia sentir os arrepios caminharem por dentro. A adrenalina no sangue, enquanto se ajeitava na cama, desconsertada.

– A Senhorita está muito machucada – Sua voz trovejou em seus pulmões. Ergueu a mão numa oferta de ajuda – Pode se levantar?
– Afaste-se de mim, demônio! – Cízia disse. Com a agilidade nos lábios, como um espadachim têm com sua mão, aquelas palavras foram mais impulsivas do que pensadas. O rapaz recolheu os dedos, e deixou que seu ombro caísse. E mesmo que essa reação significasse trégua, a sua ainda se mantinha tensa. Em pé sobre a cama, mais assustada do que raivosa. Cízia acabara de ser traída. E não estava a fim de ceder os fragmentos de sua confiança.
– Tudo bem. Tudo bem. Notei certa confusão em suas expressões. Mas não precisa ter medo de mim. Eu não sou o demônio. Mas há muitos deles por aí atrás de donzelas sujas. Não precisa ter medo. Eu a protegerei de todos eles.
Apesar do desapontamento da conversa – se foi uma conversa –, sua voz entusiasmou-se de persistência. E, talvez por isso, antes de desaparecer na luz do sol que se limitava na entrada da cabana, seus pés deram meia volta.
– Ao menos, posso saber o nome da minha hospede?
Por um, somente breve, instante, Cízia hesitou. E ela daria tudo para não ser breve.
– Cízia.
Ele riu.
– Meu nome é engraçado?
– Desculpe, Senhorita. Mas não foi seu nome que me levou rir. Mas o jeito com que pronuncia as palavras. Como se fosse dona delas. Fala com uma imposição magnífica, como se elas lhe pertencessem. Diz, como se as criassem no momento em que as pronuncia.
Cízia estava confusa. Não com o que disse, mas com o efeito que fazia nela. Ela se sentia, de alguma maneira enfeitiçada e não sabia como reagir. E dentre tantos, foi a raiva que ela escolheu. Aquela raiva que silencia as coisas, e as cortam pela tensão. Ela escolheu conversar com a escuridão do que com um demônio que anda na luz. A sua escuridão. A que havia matado aquele garoto em sua mente assim que ele atravessou a entrada.

Então, ao voltar para si, o garoto havia sumido. A luz o consumiu. Mas as sombras e ela ainda tinham muito que falar.

A má paixão

OS ABUTRES RODEAVAM A CABANA. As aves de rapina sabiam quem estava ali dentro.
Existiu uma época em que Cízia vivia entre os homens. Ou era esse o jeito que preferia contar para si mesma sobre seu passado. Desconhecia o ponto que suas lembranças se confundiam com sua imaginação. Onde a verossimilhança de suas memórias passadas se misturava com surrealidade.
Esse embaraço era um desafio que a própria tomou para si. Crescer com aquele vazio a deixou oca. Cízia iniciava um desenvolvimento de artes sombrias para o domínio. E dominar as palavras foi seu primeiro passo. Dominar um homem seria o próximo.

A sombra em sua mente lhe ensinava como uma mestra e ela aprendia como um prodígio. Pela dor, pelo medo. Podia-se arriscar a dizer, ainda que cheios de incertezas, que a longa solidão fosse uma das grandes causas criadora de suas trevas. Sua vida nas ruínas fora tão intensa, que não tomar a personalidade daquele ambiente como sua, era uma conquista inevitável. Tornou-se o próprio caos que se fez gélido, travestido de beleza e brandura. Agora, Cízia via naquele garoto mais que um abutre.

Pelas trevas, ela viu nele as más paixões, e sua ascensão por meio delas.
Muito além de um mimado humano. Mais longe que um caminho. Mas uma arma poderosa que derrubaria tudo o que quisesse. E subjugá-lo era mais que um desejo, era a voracidade queimando com porfia por dentro. Se ela não saciasse a sua fome, aquelas chamas negras a consumiria.

À caminho de casa

OS HOMENS VIERAM DA GUERRA. Aquele que invadira sua privacidade e suas ideias era só um garoto. Cízia havia saído da meditação e da sua privacidade. Foi para a luz a fora, e sentiu a pele arder.
O escarlate manchava armaduras e armaduras reluziam sob o sol. O cheiro de sangue lhe trouxe não só lembrança da fome, mas da morte, que vez ou outra deve de encará-la. E apenas ela sabe, o quanto delas tive que morrer, apenas por fitá-la, face a face.
Cízia nunca estivera numa guerra de muitos homens. Tudo o que sabia sobre guerra, era a que travara consigo e com a luz. Ver uma multidão carmesim a fez questionar. Aquela cor transparecia imundice de suas almas pérfida. Combinavam com eles, a mescla perfeita para um exército parecer temível.

Ao ver aquilo, sua mente tempestuou, e seu estomago protestou o jejum.
– Imagino que deva estar faminta – Ela o ouviu chegar por trás. Só então notou sua mão pousada abaixo dos seus seios, pressionando levemente o tecido rubro que lhe cobria as vergonhas.
Não era do seu feitio sorrir. E apesar da inexpressividade das suas feições, ela sorriu, a contraponto da docilidade de como os lábios avermelhados do garoto se movem, o seus, por mais jeitosos que fossem, eram soturnos.

– Não é de muitas palavras, Cízia – Aproximou-se de seu corpo. Ela sentiu o cheiro de magia, uma na qual nunca havia sentido, emanado do único virgem entre assassinos.
Suas mãos se aqueceram ao sentir o calor dos dedos que as envolviam. Calor que não se conteve apenas nas mãos, e correu pelas veias, como o fogo corre sobre o óleo. Pela primeira vez, ela não conseguiu recuar. Sua mente tempestuou.

– Não há nada para se notar em seus olhos. Nada que deixe escapar – O tom de voz mansa e convicta se manteve, ainda que quase muda, ao competir com o murmúrio dos soldados feridos – Eu me questiono… Se você tem alma. Eu não a vejo refletida nos seus olhos.

– Você não verá nada que eu não queira – Contradisse, atropelando sua ultima palavra, rispidamente.
– O que eu vejo, Senhorita, são dois pares de trevas. Você é uma escuridão. Uma bonita e pequena escuridão – Deixou que suas mãos caíssem, as separando – Venha. Vamos comer alguma coisa.
Cízia o acompanhou. Caminharam por entre os homens jogados ao chão, como um jardim de cravos.

Podia sentí-los espetando-a, aquela multidão de olhares pousada sobre ela. Seus passos não se intimidaram. Mas ela os entendia como bem entendia sua estranheza. Ela se exalava como um veneno doce, como a gravidade a arrastava para o par de abismos no rosto daquele garoto. E, a única coisa que ela precisava era preenchê-los, portanto precisava cair. Talvez, si mesmo fosse a única coisa que pudesse encher os grandes vazios. O sacrifício de ceder com seu coração.

Asseou-se antes de se juntar à ele. Deixou a imundice que pintava sua pele, e tornou-se limpa, limpa, como nunca recordava ser. Uma servente penteou seus longos cabelos enquanto se fixou em sua própria imagem no vidro que capturara, como uma água sem ondas, plenamente deitada, como se estivesse morta. Ela não gostou do ato, mas a ideia a estava deixando bonita demais. Não demoraria a habituar-se àquilo. Sua roupa era de servente, enquanto aquele pedaço de pano que a cobria fora deixado de lado, pois, naquele breve acampamento de volta para o reino não havia comércios, nem damas a quem emprestassem suas cedas.

No inicio houve receio. Ao ver os talheres e as louças, ao ver o ritual que o garoto fazia com aqueles instrumentos para levar a comida até a boca. E o rapaz notando sua observância, repetia os movimentos mais devagar, como se lecionasse a um surdo, menos mecanicamente e mais solenemente. Em verdade, quase tudo nele soava solene. Parecia ter nascido para isso.
Não demorou a que aprendesse.

O jantar estava bom. Qualquer tempero que fosse tempero seria o bastante para ser saboroso ao seu paladar. Quando as Ruínas eram seu lar, o sangue frio e a carne crua, na maioria das e vezes – exceto quando se achava alguma fogueira, ou brasa, abandonada pelas redondezas. – eram os únicos gostos que conhecia, ou se lembrava de ter conhecido.

– Não conheço seu nome – Sua voz escapou por entre os dentes tão distraidamente que o que ouviu dela foi apenas os ecos distantes em sua mente.
O garoto parou para lhe ouvir. Esqueceu-se da fome, e seus pensamentos sumiram. Certa admiração parecia ter corado seu rosto. Ao que parecia ser um trabalho árduo, maquinar um plano no silencio de sua voz, para fazê-la se abrir e manter a conversa, foi o alívio ouvir sua voz sem a incitação primeiramente da sua.

– Não conheço sua história – Disse-lhe cheios de expectativas de ouvi-las.
– Eu não tenho uma história. Mas você tem um nome –
Ao que parecia o inicio de um sorriso, desfez com a seriedade de Cízia.
– Edgar .
– Edgar – Repetiu. Novamente pronunciou seu nome como uma criadora de palavras. E ele adorou aquilo. E quando ela o chamava, não era apenas seu nome que proferia, era uma invocação do seu ser. Como uma ordem de um rei em sua ira. Ou como um sacerdote em ritual.
Dizer o nome dele foi como recantar uma cantiga esquecida, mórbida. Tal nome lhe trouxe átona um despertar desconhecido de uma ideia estranha no ar. E, tão velozmente como surgiu, ela dissipou sua névoa borradora.

– Diga-me, Edgar, esses homens estão voltando com honra? – Cízia apenas falava.
Edgar sorriu docilmente. Ajeitou-se no chão, onde comeram, parecendo preparar-se para contar uma grande história. As maçãs do seu rosto encolhiam seus olhos, e sob elas, as covinhas se mostravam quase imperceptíveis. Esta era uma expressão intrigantemente alegre demais para um jovem de sobrancelhas más.

– Perdemos – Esvaziou o ar dos pulmões numa única palavra. Os ombros caíram sentindo o peso dela nas costas. Já não sorria mais – Matamos quase todos os homens. Nós os encurralamos entre no Vale Estreito e os esmagamos!
Cízia notou seu punho cerrado, como se pudesse segurar sua cólera, mas ela provavelmente evaporara por entre os dedos.

– E o que perderam? – Questionou sutilmente cética. Se houve algo além da neutralidade que vivia em seu tudo, ela fazia parecer intencional. Como constantemente a impulsividade, que se lhe tomasse conta por uma fração, era por sua permissão. Deixava-a menos antinatural. O controle sobre seu Eu a tornava rainha de si mesma. Tornava-se mais livre para o mundo a fora, mais forte contra as tempestuosas vicissitudes infortunas. Mas não rainha demais para não saber que é eternamente sua própria escrava.

E Edgar era tão perceptível quanto à ela. Mesmo assim a estudava, estrategicamente e poeticamente. Escondidamente.
– Nossa humanidade. Quando um homem se apaixona pela guerra, matar vira uma arte – Não havia pesar na voz que narrava um fragmento do horror vivido. Ressoava seca de emoções – Você não parece saber muito sobre o mundo.
Edgar a fitou, esperando uma resposta, e tudo o que ouviu foram os corvos à fora. O calar de Cízia lhe incomodou mais que o crocitar desesperado de um corvo cego ao fim dos seus dias.

Uma daquelas aves negras pousou na janela. O mais velho corvo que já vira.
– O mundo dos vícios é convidativo, seu chame é exoticamente sedutor – Disse para quebrar seu incômodo – Mas sua natureza nua é fétida e horrenda.

– Como um sofisma de ilusórias promessas de felicidade – Não obstante, seu olhar parecia velejar em mares desconhecidos. Sua angustia eram como ondas gigantescas. A resposta mediata mais veio como compreensiva do qualquer outra coisa. E ele sentiu, como um abraço morno nos ventos de outono (E ele sentiu suas palavras lhe abraçarem mornas em ventos de outono).
Não dialogaram muito. O tempo esfriou. As fogueiras se acenderam e Cízia recolheu-se.

Um conto sombrio

NUVENS CINZENTAS DESCOLORIAM O CÉU, carregadas de água ao se encontrarem, um trovão num barulho feroz fazia tudo vibrar, e a chuva caiu brandamente. Assim começou mais uma caminhada de volta ao castelo.

Os homens marchavam. O exército era grande. Trinta mil soldados pisoteavam o gramado por onde passavam. Cízia não imaginava sua extensão, não os tinha notado em tão grande número, e nem mesmo agora fazia ideia do glorioso massacre que houvera.
– Cízia, vou lhe contar uma história – Disse, aproximando devagar o seu cavalo ao dela – Gostaria de ouvi-la?

Não houve respostas. Edgar aceitou sua mudez como uma concordância da parte dela. Ele pigarreou, anunciando seu discurso.
Se houve luz no Império Mork, ela fugiu. Em tempos remotos, os reis diziam que a paz regia o coração do povo. Mas as trevas acordaram de um longo sono, e sua sombra trouxe a tormenta, e o caos imperou sobre o reino. Por um século eles sangraram, e a decadência por fim veio. Todo o império sucumbido às trevas, descolorido no breu que cegava os olhos, tornou-se o lar de criaturas demoníacas. No castelo destruído, morava ali um homem centenário. Sua coroa havia afundado em seu crânio durante suas batalhas. Mas aquela maldição que pairava no ar, como uma névoa densa, preservava sua vida, aprisionando sua alma à carne empalidecida e enrugada de um corpo antigo. Willy, O Morto. O único sobrevivido das Últimas Guerras de Mork, não sabia por quanto tempo mais respiraria a morte, mas sentia sua sutil respiração falhar, e, ao que parecia ser seu ultimo suspiro, fez magia. Um grito ecoou por todo o continente. Um som fúnebre, como se o próprio horror tivesse voz. As nuvens estremeceram, e todos os reinos ao seu redor se calaram durante aquele breve ruído. Principalmente um jovem homem que pelas fronteiras de Mork cavalgavam. A onda de arrepios o fez se contorcer. Aquele grito havia invadido as entranhas de sua alma, e sabia que aquilo era magia. Em verdade, muito mais que isso. Era um convite.

Cízia parou sua montaria. Bastou um sutil pressionar de rédeas. O ar corrente trazia odor, se demônios cheiravam, ela não sabia, mas se exalavam algum aroma, o horror era seu perfume e ele dançava no vento. Suspirou, e sentiu profundo em seus pulmões os tambores retumbar, como os céus anunciam a tempestade.

Edgar não esperava sua parada repentina. E por estar mais a frente, deu a volta ao seu redor e parou ao seu lado.

– O que passa, Srtª Cízia? – Seu tom revelava certo incomodo. E a cada breve instante em que aquela voz imperativa fazia mistério em se esconder atrás dos dentes, à curiosidade começava a ficar excitante. Era sempre uma surpresa para ele, quando havia hesitação de Cízia.

– Um demônio está vindo – Disse quase hipnoticamente, como se estivesse em transe. Parecia que, através do cheiro, ela pudesse ver – Seu inimigo. E ele não está sozinho.
Estranhamente os lábios de Edgar correram num sorriso eloquente. Não havia surpresa manifestada ali, mas um vestígio mórbido de satisfação.
Por mais absurdo que parecesse, Edgar sabia que ela estava falando a verdade, e que, porventura, ele estava sorrateiramente esperando sua vinda.

Um reino distante

OS ABUTRES VOARAM PARA O ALTO. Os bravos homens descansavam, enquanto a noite despertada vigiava aqueles céus e os moldava como uma canção para adormecer. A cantiga mais antiga do mundo era a noite. Há os sensatos, que não as ouvem.

O sono lhe soava a mais traiçoeira das virtudes. Seu caos o baniu igual se expulsa um cachorro sarnento dum salão real. Seu corpo era um templo, a morada da obscuridade pérfida, o lar medonho da insanidade, e nenhuma luz era bem vinda enquanto esse baile espiritual fosse incessante.

Cízia estava distante das fogueiras crepitantes dos homens. Preferia a solitude acompanhada da quietude do rio que anda pacífico, e do vento que acarinha a rosto.

Sentada aqui, às margens do rio, que fora vista por aqueles olhos de lua negra. Edgar aproximou-se devagar, com passos tímidos, sem fazer menção de perturbar.

– Para onde estamos indo? – Suas palavras se pronunciaram sozinhas. Elas pareciam querer desmanchar sua compostura, propositalmente.

– Essa é uma das respostas que gostaria de lhe responder com uma história – Edgar parecia não se cansar de contar histórias.

Vernar, O Reino Esquecido, como costumam chamar aquela região, onde não obstante, fora duma ascendência inesperada e sombria, ao mesmo modo de sua decadência. Se seus muros pudessem contar suas histórias, eles cairiam. Se as paredes revelassem segredos que um dia ouvira, elas se prostrariam. Se o solo contasse as guerras e covardias, do que um dia foi um Reino, o sangue emergiria, e um mar vermelho inundariam as construções. Estes são segredos que morreram com seus primeiros reis e suas políticas escusas, assim como o reino tombou junto aos seus líderes.

Elas pareciam suas aventuras, mas não eram. E a empolgação não era pela oportunidade de conta-las, e sim para quem contá-las.

– Conte-me seus segredos, Cízia.
– Há coisas que nascem em segredos, e com elas devem ser enterrados, no tumulo mais sombrio, e mais fundo – O seu tom tomou rumo severo, tom de quem amarga a boca ao sentir o gostinho do pesadelo que sonhou um dia. Tom de quem já sentiu o medo revelar a sombra duma loucura incomensurável. Mas não passou do tom traidor, ainda amargo, permaneceu inexpressiva – O horror que algumas revelações trazem é um fardo muito pesado, de perturbar sábios, e enlouquecer os tolos.
Edgar sorriu docemente ao lhe encarar.

– E Edgar – Cízia lhe diria seus pensamentos, e sua filosofia obscura. Mas outros lábios calaram os seus. Ela sentiu o ar cálido da sua boca. O toque era gentil, e havia paciência em seus gestos. Cízia sentia a tal magia lhe invadir, lhe envolver de dentro para fora. Era assustador e irresistivelmente excitante.

Em verdade, eles não sabiam o que acabara de acontecer. Não que Edgar não soubesse o que fazia, mas aquilo não foi o fato isolado, havia magia e Cízia sabia.

Edgar ainda viajava pelos sentimentos oriundos do desconhecido, que à tona vieram sob tal propósito a se desvendar. Cízia se sentia surpresa, assustada, não sabia como reagir, nunca se sentiu tão frágil e exposta, mas de uma coisa ambos tinha certeza absoluta; eles se desejaram num beijo. O que virá em diante não poderá mudar esse fato, e o que aconteceu antes, de nada importaria. Apenas o presente era vívido, apenas o presente era real. O passado podia ser confundido com um sonho, ou um pesadelo, e o futuro era um mar de águas incertas. Mas dentre todos esses turbilhões de pensamentos, eles apenas pensavam no desejo e na boa paixão.

Cízia, A Má

O ATAQUE FOI DIRETO À EDGAR. Um cavaleiro branco veio veloz e o derrubou. Ele era hábil, e seu cavalo era tão bruto que os músculos pareciam pulsar. Sua armadura era cândida em todos os sentidos e brilhava como luz pálida.

Ninguém o notou chegando. Ele brandiu sua espada, branca como todo o resto de si. Pulou da fera para o chão. Ergueu a mão, e o despiu sua cabeça do elmo. Aqueles olhos não eram nuvens.
Cízia os reconheceu no instante em que os viu. Era da Morte, e aquele era o seu gladiador.
Edgar desembainhou sua espada, e os tilintares foram breves, antes dele voltar ao chão. O demônio tinha duas vezes o seu tamanho, e por mais ágil que aquele garoto esguio fosse, a criatura o superava sem medir esforços.

A tontura o manteve ali, enquanto o demônio erguia a espada.
– Pare, demônio! – Bravejou.
– Você nada fará nada, Cízia, A Má – O demônio falou com um sotaque carregado de calmaria, de quem já viveu muitas pressas numa eternidade. Moveu o rosto com uma sonolência de quem acabara de acordar, sem renunciar a firmeza persuasiva e imposta naquele olhar por cima do ombro.
Sem mais delongas, deixou suas mãos descerem empunhando a espada no corpo jovem do garoto.
Seja lá quem fosse, já havia desaparecido.

Cízia correu tão depressa o quanto pôde, e sentou-se ao lado. O garoto espirrava sangue, e ela pôde sentir os respingos escorrerem em seus lábios.
Edgar tremeu o queixo, balbuciando o que não conseguia com clareza dizer. Cízia aproximou seu ouvido, e o compreendeu.

“Você é uma linda escuridão. Minha linda e pequena escuridão”. Foi o que disse e somente, tão somente isso precedeu seu fim.
Agora, entendia pouco mais sobre o mundo, e não era confortável.

De todos os momentos, este fora o primeiro que decidiu, com todas as suas forças reunidas, lutar. Bravar contra si mesmo, contra uma culpa esmagadora, e contra um passado que lhe arrastava para um abismo sob a terra, virgem de luz e calor. A maior batalha está por vir. E não é essa que os homens travam no campo de batalha. É essa que existe dentro de cada um.

Algo lhe havia perturbado a coragem, mas dela ainda sobrava o bastante para vencer o medo.

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Escritor, apaixonado. Pequeno escorpião. Viciado em livros e em Tolkien. Amante da lua nas madrugadas de insônia.