O PRÍNCIPE EDGAR TIVERA DE SER AUSENTE. Assuntos do reino lhe exigiam toda sua atenção. Cízia se sentia aliviada e de algum modo isso lhe importunava. Mas o que lhe consumia verdadeiramente, não era isso. O que lhe exaustava se mantinha escondido, mas com certa façanha, como um segredo atrás da língua que não se importa em se revelar desde que seja no momento da sua instável vontade, e isso sim era um sigilo.

Por mais que tentasse, suas meditações não saiam da sua mente. Elas não transcendiam, e muito talvez, as paredes eram sólidas demais.

Os corredores eram longos e possuíam muitas curvas para muitos caminhos. A intuição lhe guiaria, mas não para uma, literal, saída. Embora sua intuição fosse totalmente espontânea, sabia que se a seguisse, seria lavada a Edgar.

Cízia meditava, e somente, há alguns dias.  Edgar ainda não voltara e nenhuma visita invadira seu quarto. O silêncio era o som do vazio que nem mesmo os ratos ousavam desafiar e ela adormeceu.

“Ela era bonita. Seus lábios eram rosados como os bicos excitados de seus seios. Eu o vi admirá-la, e eu senti amá-la quando se deitaram. Mas ela não o queria mais quando ele saiu do canto escuro. Ela rejeitou seu toque e chorou ao ser tocada. Aquilo nos causou dor. Ela estava triste demais para se importar que ele saiu pela janela daquela torre. Eu o odiei. Eu o odiei porque ela se parecia comigo.”

 Cízia despertou demasiadamente devagar, estava fraca, seu estômago revirava e sua barriga inchava. A dor que latejava em sua mente encolhia seu corpo. Cízia sofria sem deixar qualquer gemido escapar. Seus músculos estavam tensos. Ela se manteve envolta num casulo de sombras, caída próxima à cama. Parecia estar grávida e com um demoniozinho dançando dentro dela. Ela podia senti-lo lhe matando, sentia-se violada. O enjoo permanecia cada vez mais agressivo e ao final da noite, ela vomitou, toda sua dor se esvaiu no liquido preto e denso jorrara de sua boca. Sua barriga voltava ao normal e a fome veio desavergonhada.

Pequenas aranhas surgiram daquele sangue escuro e ela apanhou uma por uma e as comeu. Exceto a última. Talvez por andar cambaleando com suas muitas perninhas para lá e para cá, diferente das outras que pareciam determinadas e apressadas. Cízia a deixou escapar, com um caminhar meio torto, meio débil, desaparecendo nas sombras.

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