RECLUSA EM SI MESMA, Cízia absteve-se de mais preocupações. Concentrava-se apenas no que faria em seguida. Possivelmente ela entendia a real gravidade daquela situação que se estreitava. E enquanto mergulhava tão dentro de si, Percebia nas ondas inquietas de suas viagens faces monstruosas que adormeciam nas profundezas do seu ser, rostos animalescos, expressões cruéis.  E ainda assim o ronco do seu sono perturbava o mar.

Em verdade, Cízia meditava levianamente procurando por toda sua vastidão íntima e desconhecida um fio para tecer uma conspiração contra os homens. Por mais que testemunhasse o que aconteceu, a ignorância dos homens a levariam à um futuro distante do que almejara para ela.

Embebedou-se de sua mágoa ao longo dos dias, e dela proveio outra escuridão e suas trevas cresceram, aninhando-a como uma filha. E mais uma vez, Cízia conheceu uma parte de si, sórdida e destruída. Um lado ínfimo de toda sua composição definhada e obscura. Seu próprio magistério desvirtuadamente mau.

A cada renascer do sol, Cízia , clandestinamente se mantinha logo atrás dos homens, que não mais marchavam com o ar de glória que exibiam da vitória. Eles caminhavam temerosos, abatidos pela perda. Perseguia-os para onde iam, pois era de onde vinham.

Os dias se seguiram arrastados. As lástimas lhes pesavam o andar e a cada passo dado em frente lhes encurtavam de um futuro tão incerto quanto o próprio senso do Rei que oscilava entre um extremo e outro aos grandes conflitos de uma mente perturbadamente frágil.

Seus pêsames eram mais egoístas, do que pelo príncipe e as punições eram mais severas do que elas eram julgadas.

Não haviam desertores. Os monstros que enfrentavam demônios temiam mais seu próprio Rei que seus inimigos. Pois, no campo de batalha eles eram um exército. Uma unidade enlouquecidamente unida pelo desejo de sangue e morte. Uma sinfonia uníssona. Mas no Reino, eles eram apenas eles, partes que poderiam se tornar frágeis à um som ínfimo do estalar de dedos do único soberano autoritário e estupendo. Eles sabiam que não morreriam honrados nos campos de batalhas, mas seriam subjulgados nos becos e nas esquinas quando ninguém mais estivesse lá. Ou nas suas casas enquanto dormiam. Ou nos bares enquanto bebiam o sabor lúgubre de veneno. E no outro dia, os mendigos e ladrões seriam queimados e enforcados publicamente como responsáveis pelas suas mortes.

Um lugar perfeito para morrer

O vislumbre que se estendeu sobre o império, adentrou pelos seus grandes olhos e se fixou em seu coração. O pulsar em seu peito, agora pois, era como um ribombar de más vibrações que a fez estremecer. Cízia, então, entendeu a energia que comandava aquele Reino. E, antes de se emudecer com o que se impressionara, sentiu os lábios formigarem.

O mundo precisa cair. Só assim ele sobrevivera. A maré tormentará nas nuvens sobre nossas cabeças, como auréolas de caos. Como uma maldição agarrada, como sombras de nossas próprias almas. O passado que se esconde, agora é revelado, desmascarado, e sua nudez é lascívia.

Tudo se apagou e nada mais ela pôde ver.

O sol se inclinou para as montanhas e a lua se ergueu. Só depois, quando as estrelas estavam quase todas ofuscadas pela luz que mesclava os tons claros nos céus, ela enxergou.

Apesar maciez sobre seu corpo, não era os tecidos que lhe aquecia tão internamente. Sua pele ainda permanecia fria como suas expressões eram inanimadas. O seu coração é que estava leve, e ela reconhecia essa magia. E por mais que lhe confortasse, ao mesmo tempo lhe afligia por não conseguir mantê-la sobre controle, não sabia recuar do que jazia em seu íntimo.

Edgar estava adormecido num assento luxuoso em frente à sua cama, próximo à janela, por onde rastejava uma luz nascente.

 – Edgar! – Cízia irrompeu o sono do garoto ao pronunciar seu nome com certa entonação emotiva. Talvez algum tipo de alegria contida tarde demais. Mas ela praticamente o evocou.

De súbito, Edgar quase deu um pulo de onde estava. Dormira preocupado.

Admiravelmente Cízia aprendia cada detalhe do cômodo onde estava. A escrivaninha, a pena. A cama, o fogo manipulado no lampião. As molduras da janela, e o veludo que a cobria.

– Cízia… – Disse devagar, com a sonolência de um corpo cansado. Mesmo depois do susto que levou, a adrenalina não lhe despertou por completo.

Um sorriso brotou em seu rosto, e para ela, o dia começara ali.

– Você seguiu meus homens. Eu a encontrei desacordada e a trouxe para cá. Meu lar.

Cízia os seguiu até a entrada dos Grandes Portões. E, espiando por detrás de troncos antigos, ela os viu se abrirem. Estava claro em sua mente, até que o vislumbre a desacordou. Uma espécie de força misteriosa regia o Reino.

O assombro de males remotos não permaneceu no passado. Tal força permanecia incessante. Tal força exalava as más vibrações como uma coisa grande e morta exala um odor fétido. Mas o que fedia não era matéria, e sim algo de cunho espiritual.

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Escritor, apaixonado. Pequeno escorpião. Viciado em livros e em Tolkien. Amante da lua nas madrugadas de insônia.