VOZES! AQUELAS VOZES GRITAVAM EM SUA MENTE. Suas mãozinhas pressionavam seus ouvidos como se pudessem tapar o que lhe acontecia por dentro. Um ruído intenso de timbres agitava como se não pertencessem à lugar algum. Não eram dos homens que descansavam ao redor de fogueiras.
E, por um breve instante de loucura, pensou que o ouviu chamar seu nome. A voz de Edgar atravessou a multidão de vozes com um pesar de súplicas, e ela sentiu sua dor.
A voz de Edgar não provinha daquele corpo caído diante dela. Nem adentro da floresta do outro lado do rio. Nem da água, ou de outro lugar afora.
Era uma canção perdida que se recordava, e ao fazer isso, ganhava mais força. Realista demais para os prelúdios duma loucura. Um formigamento tomou sua língua, e junto àquela voz dócil, proferiu as palavras que repetiu em sua mente.
Leve-me ao rio. Afogue-me nas águas escuras. Eu estou retornando.
Cízia não questionou. Levantou-se e arrastou o corpo pela grama. Nas margens, ela o empurrou até sucumbir na superfície de águas tranquilas.

O renascer

O AR INVADIU SEUS PULMÕES TÃO DEPRESSA, que sua garganta vibrou. Contorceu-se na grama, enquanto seu corpo esfumaçava sem queimar. O suor parecia evaporar antes mesmo de escorrer em sua pele, alva, assim como suas lágrimas que pesavam a dor.
A tontura parecia atingir seu ápice, e, revirava sua mente com revirava os olhos. A sensação de perda era intensa, como se aquela dor lhe arrancasse alguma coisa que lhe pertencia, tão valiosa e enraizadamente profunda nas mais altas felicidades vividas, e era justamente por isso que doía no mais perverso dos sofrimentos. Mas aos poucos parecia lhe ir desanuviando a mente.
Quando toda dor sumiu, seu corpo havia se normalizado. De algum modo, sabia tão intimamente que seu passado havia sumido.
Devagar, cambaleou seu corpo pesado até conseguir permanecer de pé. A cada passo, seus músculos magros se firmavam.
Seu mundo tinha mudado.
Reerguer-se da morte não era algo comum. Nem mesmo entre os mortos. E, apesar de sua alma ter sobrevivido, ela voltara quebrada. E mesmo que todos os estilhaços espalhados voltem a se reunir, as marcas são irreparáveis.
Mas algo estava atraindo sua atenção. No farfalhar das folhas, pareciam estar escondendo algo. No vento frio que uivava, como lobo ameaçador.
Aquele clima tênue, como um cheiro raso no ar, se arrastava silenciosamente e lhe cercava como uma matilha sedenta e faminta.
As sombras se reuniam a cada passo dado, com um círculo de escuridão que se diminui de tamanho, que lhe pressionava o coração, fazendo-o pesar, e seus joelhos fraquejaram e cederam ao chão.
Um corpo peculiar se moveu em seu manto, caminhando a ele. Esse Edgar não previu, não o sentiu presente naquela reunião das sombras, e ainda assim lá estava as representando. Não muito longe, e realmente seu tamanho era um tanto minúsculo. Um pequeno garotinho de rosto sério e traços finos o encarava tão suave e prolongadamente que começava a soar como desafio. Em verdade, seria muito pior se fosse.
– Principe Edgar – A vozinha infantil ressoou dele – Eu lhe darei de presente dois tormentos; o que não se dizer nada sobre pode isso, e o que não se pode fazer algo além de observar.
Então ele o beijou nos lábios, e Edgar chorou.
Edgar sabia, por esperteza própria, sem mais, que aquela criatura também era um demônio. Diferente do que o matou, desigual à todos os outros de que ouvira falar. Mas nenhuma criança anda solitária pela noite numa floresta. Não as crianças normais. Aquela não emanava de si energia alguma, nem sequer ele tinha presença.
O garotinho, antes de mais nada, deu as costas e adentrou na cegueira da floresta desaparecendo, assim para Edgar tão desejadamente, para sempre.
O príncipe permaneceu ali, sem escoltas, num ar destemido que se fazia sobre si mesmo, talvez soubesse mais do que qualquer um sobre uma ameaça que crescia como veneno numa plantação.

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Escritor, apaixonado. Pequeno escorpião. Viciado em livros e em Tolkien. Amante da lua nas madrugadas de insônia.