Ainda recebo olhares estranhos quando certas pessoas descobrem que escrevo no gênero fantástico. Às vezes, posso interpretar o que elas nescondem por detrás de um aceno de cabeça e um sorriso sem dentes depois de um: “Interessante”. Elas mal percebem que um “Esperava mais de você” acaba escapando por suas expressões, ou algo como um “Pensei que fosse algo que eu pudesse ler”.

Sempre fui atraído por universos mágicos. Cresci com as leituras apaixonantes de Maria José Dupré, aventuras e caças ao tesouro. Quanto mais fantasia, melhor ficava. E quando, de fato, passei a me importar com o que a lista da Veja dizia sobre os mais vendidos, meus olhos, sempre, mesmo quando eu não sabia o que fazer para ser diferente, corriam para… ficção. Eu não queria que fosse daquele jeito, mas é bem verdade que o restante, me importava muito menos.

Se você compartilha de ações ou vontades parecidas, não vou te pedir para levantar a mão e, sim, convidá-lo a parar para pensar no porquê da preferência. Por que trocar um clássico por aquele livro do gênero fantástico que todo mundo está indicando? Por que preferir as 800 páginas de Robert Jordan ou George Martin ao invés de um Saramago, Jane Austen ou até mesmo um romance de Sidney Sheldon? Por que dar mais chances para a literatura que é considerada pela academia como inferior? Por que mesmo quando você aprende a desfrutar de leituras com maior requinte, no fundo, no fundo, ainda prefere aquele tom mágico, levemente distópico e aventureiro que só a fantasia sabe oferecer?

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Vou te dizer a resposta que encontrei e talvez funcione para você. O que acontece é que nada poderia ser mais simples e encantador do que isso: um roteiro de fantasia não só consegue desencadear uma réplica da vida real de qualquer ser humano, como é capaz de fazer isso melhor do que qualquer outro gênero. Autores de fantasia não escrevem apenas para impressionar leitores através de ganchos e cenas bem construídas, mas para mantê-los como a presa perfeita fisgada pela isca da identificação envolvida com a dose ideal de irrealismo. Não acontece da mesma forma em outro gênero, não com a mesma magia.

Não preciso de muito mais palavras para mostrar meu ponto de vista. Basta refletir sobre qualquer livro do gênero que siga caminhos da clássica jornada do herói onde cada conflito, arquétipo e etapa são desenvolvidos de forma estratégica, sempre em comparação com as fases da vida comum. Por não estar presa aos limites da realidade, a fantasia, por sua vez, dispõe de recursos inimagináveis para acentuar tal comparação.

Um rapaz que vive enclausurado num mundo sem sal descobre que uma vida de aventuras o espera numa esfera que a população comum não é capaz enxergar. Ele faz amizades duradouras, assim como inimigos. Ele é cercado por uma profecia e precisa vencer os mais terríveis obstáculos até ficar cara-a-cara com seu maior vilão. Vale acrescentar algumas mortes, perdas, risadas, um universo interessante, uma língua sinistra, uma paixonite, uma derrota momentânea, um trunfo, uma recompensa. E não se surpreenda se quase todos os títulos de fantasia que você se lembrar se encaixarem aqui.

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No gênero fantástico, conflitos e cenas que estariam em outros tipos de roteiro como a dificuldade de passar num exame, o toco que o rapaz levou da garota que ama, a doença que limitou a vida do personagem principal em 15 dias ou os tiros que o vilão levou na cena final se apresentam numa esfera, obviamente, fantasiosa. Caberia melhor algo como a dificuldade de atravessar um lago com seres semi-vivos, o fora que o herói humano levou da elfa, a contagem regressiva para a morte depois que um ancião poderosa destruiu um objeto com magia das trevas, a morte do vilão por raio dardejante.

Ainda assim, que fique claro, apesar da brincadeira com o imaginário, a grande jogada é que as etapas da vida continuam sendo as mesmas. Todo mundo tem uma prova difícil na vida, todo mundo leva um toco de alguém que está apaixonado (ou deveria), todo mundo se depara com o momento de precisar concluir algo quase impossível em pouquíssimo tempo, e ninguém está livre da morte. Na ficção, tudo não passa de paralelismo com a vida. E na fantasia, com a quantidade de recursos permitidos, enquanto seus olhos se movem sobre as páginas de um livro, você é levado a um mundo de pessoas, leis e autoridades diferentes quando, na vida real, você está sentado para ver a si próprio enfrentando as mesmas aventuras que você vive ao longo da própria vida, e torcendo para que você mesmo se dê bem ao final.

Ainda recebo olhares estranhos quando as pessoas conhecem minha prateleira de livros. Ainda torço para que os jovens desejem ampliar seus repertórios e dar chances à leituras novas. Torço ainda mais para que as pessoas esqueçam o preconceito com gêneros literários e que se comportem com toda a expectativa para o qual acredito que fomos criados para ter. E sim, ainda tenho esperança de que as pessoas que valorizam o fantástico não se tornem reféns da própria vida.

About The Author

Stefano Sant' Anna

Jornalista, Designer Gráfico e autor do livro “Inverno Negro” que será lançado pela Editora Empíreo em 2015.