UMA MOÇA, na qual se travestia elegantemente num vestido negro de veludo, que descia esboçando suas curvas magras, e esbanjando-se ao chão sua enorme e volumosa bainha. No alto do seu cabelo penteado, com uma enorme e grossa trança que se deslumbrava em seu ombro, se pendia uma coroa carmesim e brilhante, como uma estrela sangrada, acrescentando-lhe uma delicadeza real, enfeitando a escuridão dos seus fios, e em contraste, sua pele que era tão alva quanto o próprio branco puro. Branquíssima.

Cízia podia sentir seu peso, e seu ego. Sentia-se verdadeiramente estreme. Digna de sua nova posição. Pois ela venceu e conquistou.

Era uma clara manhã. A rainha Cízia fora coroada, e jazia em seu trono de obsidiana negra. As compridas vidraças permitiam escapar a luz renascida do sol, e a maneira com que a tocava sua pele, iluminava-a de uma qualidade divina. O rei sequer se atreveu a interromper. A sua inteira atenção permanecia observando-a, admirando-a com a fascinação estagnada de um jovem apaixonado que se depara com sua amada, e naquele eterno instante, nada mais importava.

Fosse ela uma pintura perfeita, feita por um coração obscuro e equânime, que ganhara vida e vivesse às suas próprias vontades. Edgar a contemplou distintamente. Diante de um breve momento, ela pereceu dotar-se uma ausência de sentimentos.  Era como se ela não estivesse ali, como se sua alma estivesse abandonado o corpo.Ela parecia um sopro de inverno.

A sua coroação feria os velhos costumes. O seu casamento. Nenhum rei devia se casar com outra, a quem não lhe fora prometida. E forma alguma a rainha devia ser estrangeira.

Mas Edgar, sucedendo seu pai, era a nova lei.

Sua Maldade

ESTAVA TUDO DIFERENTE. Cízia não entendia só em partes. Enxergava por completo. E ela compreendeu muito mais profundamente. Sua mente concebia ideias como uma mãe os filhos. Ela tomará o mundo.

Tudo ficou mais escuro agora, mais excitante. Edgar viu sua sombra, e se curvou como todo o resto se curvará.

Anos de reinado e um mundo ferido

O cheiro da sua maldade entorpecia o mundo. Envenenava os homens e expurgava a luz para longe. A luz que reverberava se quebrou e as trevas adoeceram os bons.

Heróis caíram. Exércitos foram vencidos. Cízia estava implacável.

Aliou-se à feras nascidas da tormenta, cujo único objetivo era matar. Conquistou monstros que serviam ao seu domínio e a sua causa. Tomou cidades, impérios. Tudo.

Seus seguidores estavam espalhados por todos os cantos, e eles eram muitos.

Compôs uma poesia com sangue inocente, e o mundo estremeceu. Tocou uma canção sobre os corpos dos heróis caídos, e mundo ao ouvir morreu. Quando a esperança é arrancada pela raiz, não há mais vida.

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Escritor, apaixonado. Pequeno escorpião. Viciado em livros e em Tolkien. Amante da lua nas madrugadas de insônia.