O CATIVEIRO QUE LHE MANTINHAM ERA NA TORRE ALTA, suspeitava. A porta bem trancada. Ainda fragilizada com o que ocorrera, aquelas aranhas pareciam lhe ter devolvido um pouco da sua beleza jovial e morta que seu rosto havia se esquecido pelos maus tratos sofridos nesses dias de confinamento.

Ainda deitada em seu próprio vômito, a janela lhe chamou a atenção, e por um breve instante, julgou tê-lo visto nela. O homem do seu sonho ruim, e isso a atraiu. Estava excitada e raivosa, estava mexida. Em verdade, seus olhos não o viu, mas ele estava lá, não na janela. Estava naquele mesmo canto, a admirando e desejando mais uma vez, aguardando o sono traiçoeiro envenenar seu corpo.

Ergueu-se do chão, e se aproximou do parapeito. A luz matinal esbranquiçava as nuvens e lhe ofuscavam a visão, espiou a altura. Estava certa, a torre era tão alta quanto pensava. O muro do castelo parecia pequeníssimo, como se bastasse um pulo para atravessar.

Avistou a floresta, do outro lado do muro, o verde era vivo e brilhava pelos orvalhos nas árvores amontoadas umas nas outras. Estendiam-se como um longo tapete verdejante, que se mesclava ao cinzento para além do horizonte, onde se uniam às nuvens e ao infinito. A linha era tênue entre o céu e a terra.

Havia um rio que corria próximo a torre, logo abaixo, suas águas fluíam corrente e contornavam algumas pedras nas margens. Parecia fundo.

Outra vez, enxergou seu corpo boiando, carregado pelo fluxo. Sempre, sem nunca ver sua face. E sua presença já não estava próxima. Nada jazia nas águas, nada além do vento que a tocava na superfície, e das pedras no caminho.

A altura começara a ser convidativa, e as más ideias incitavam sua mente. A vontade tomava um parecer irresistível e num reflexo insurgente, atirou-se para trás.

Ficou confusa. A mente repercutia vozes, sons se agitavam pelo corpo. Cízia sentia como se mil espíritos gritassem em seus ouvidos.

Não podia ter espaço para todos. O incômodo era quase insuportável, como se o juízo estivesse desvanecendo, deixando-a a beira do delírio. E então, ela entendeu.